Depressão nas escolas: o que os números em Portugal revelam sobre a saúde mental dos jovens.

A escola deveria ser um lugar de aprendizagem e de crescimento. Para muitos jovens portugueses, porém, é também o cenário onde a tristeza, o nervosismo e o esgotamento se tornam quotidianos. Estudos recentes — da Universidade de Lisboa, da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra e da DGEEC — mostram um agravamento claro da saúde mental na adolescência, em especial nas raparigas e nos alunos mais velhos.
Se é pai, mãe, professor ou alguém que acompanha um jovem, estes dados não servem para assustar: servem para agir a tempo.
O que se passa nas escolas?
A depressão na infância e na adolescência raramente surge de um dia para o outro. Costuma instalar-se em silêncio: menos vontade de estar com amigos, notas a cair, irritabilidade, cansaço que não passa, dificuldades em dormir. No meio escolar, a pressão dos testes, o medo de falhar, o bullying, o uso intensivo de ecrãs e a comparação nas redes sociais agravam o quadro.
A pandemia deixou marcas. No estudo HBSC/OMS 2022, coordenado em Portugal pela equipa Aventura Social (Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa), os adolescentes reportaram mais pressão escolar e menor sensação de segurança na escola (de 80,3% em 2018 para 76,7% em 2022). A Direção-Geral da Saúde destacou que entre 15% e 30% dos jovens sentiram impacto negativo da pandemia na sua vida.
Importa notar: sintomatologia depressiva (tristeza persistente, baixa autoestima, perda de interesse) não é o mesmo que um diagnóstico clínico de depressão. Mas é um sinal de alerta forte — e, quando é frequente ou grave, deve ser avaliado por profissionais.
Sinais de alerta para pais e professores
Fique atento se o jovem, durante duas semanas ou mais:
– parece triste, vazio ou irritável a maior parte do tempo;
– perde interesse pelas atividades de que gostava;
– dorme demais ou demasiado pouco; queixa-se de cansaço constante;
– tem queda no rendimento escolar ou falta muito às aulas;
– isola-se dos amigos e da família;
– fala de se sentir um peso, de “não aguentar” ou de desejo de desaparecer;
– apresenta autolesões ou comportamentos de risco novos.
Um único sinal não significa depressão. Um padrão persistente, sim, pede atenção.
O que fazer: passos práticos?
1. Fale sem julgamento. Pergunte como se sente. Escute mais do que aconselhe. Evite “isso passa” ou “não tens motivos”.
2. Contacte a escola. Fale com o diretor de turma, o Serviço de Psicologia e Orientação (SPO) ou o enfermeiro escolar.
3. Procure o nosso apoio. Fale com os nossos voluntários pelas linhas oficiais: WhatsApp +351 910 094 252 ou email apoio@saindodadepressao.pt.
4. Proteja o essencial. Sono, atividade física, tempo offline e rotinas previsíveis são fatores protetores confirmados pelo Observatório DGEEC.
5. Não espere que peçam ajuda sozinhos. Muitos jovens com sintomatologia depressiva precisam que alguém dê o primeiro passo.
O papel da escola e da família:
Os estudos são claros: o suporte da família, dos professores e dos colegas protege. A escola que deteta cedo e reduz o estigma salva percursos; a família que escuta sem minimizar cria espaço para o jovem falar. Não é preciso “saber o que dizer” — é preciso estar presente e procurar ajuda quando os sinais se mantêm. Os dados do *Mais Contigo* mostram que, com acompanhamento, a sintomatologia pode baixar de forma mensurável